Marcelo Gleiser: “Einstein é um ícone do conhecimento humano”

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Com a Teoria da Relatividade Geral, Einstein revolucionou nossa compreensão da natureza do espaço, do tempo, e da matéria, mostrando que os três estão intimamente relacionados”, diz Marcelo Gleiser. Em entrevista à GALILEU, o físico carioca, professor da Faculdade de Dartmouth, nos Estados Unidos, falou sobre o impacto da publicação da Teoria, as consequências dela e a importância de Albert Einstein e suas descobertas na história da ciência. Leia abaixo:

O que a publicação da Teoria da Relatividade Geral significou para a ciência?

A Teoria da Relatividade Geral é um marco não só da física, mas do conhecimento humano. Com ela, Einstein revolucionou nossa compreensão da natureza do espaço, do tempo, e da matéria, mostrando que os três estão intimamente relacionados. Antes, na física de Isaac Newton, a matéria ocupava o espaço e seus movimentos ocorriam no tempo. Ambos, espaço e tempo, eram inertes, como um palco. Na teoria de Einstein, a matéria afeta a geometria do espaço e o fluir do tempo; ambos obtêm uma plasticidade que depende da quantidade de matéria. Como disse o físico John Archibald Wheeler, a matéria diz ao espaço como se encurvar e o espaço diz à matéria como se movimentar. A teoria de Einstein deu origem conceitos novos como o Big Bang e a expansão do universo, buracos negros, máquinas do tempo, buracos de vermes e, de forma crítica, que a matéria e a energia são manifestações da mesma coisa. Einstein construiu uma nova visão de mundo e, com ela, redefiniu nossa relação com o cosmo.

A teoria descreve o contínuo espaço-tempo como um “tecido”. Como entender esse conceito?

A ideia é que o espaço não é uma entidade rígida, mas amena à deformações, como uma cama elástica. Quanto mais pesada a pessoa (quanto mais massa, na verdade), maior a deformação da cama elástica. O mesmo com o espaço. Com isso, o espaço é encurvado perto de um objeto com muita massa, como uma estrela. Um teste disso é a trajetória de um raio de luz que passa perto dessa estrela; como ocorre com uma lente, a trajetória do raio é encurvada. Einstein mostrou como calcular esse desvio de forma precisa. O mesmo ocorre com o fluir do tempo: quanto maior a massa, mais devagar passa o tempo. Um relógio na superfície do Sol (se pudesse funcionar lá) bateria as horas mais devagar do que na Terra.

Em sua opinião, quais são os principais acertos e erros da teoria? Certos aspectos dela foram superados ao longo do último século?

A teoria passou todos os testes observacionais até o momento. Portanto, sua margem de acerto é de 100%. Ela não tem erros, ao menos por enquanto, mas tem limitações. Por exemplo, não sabemos o que ocorre quando a gravidade  muito forte, como no coração de buracos negros ou nas vizinhanças do Big Bang. A teoria de Einstein prevê o que chamamos de “singularidade”, que significa que falha nessas condições mais dramáticas. Possivelmente, será necessária uma amplificação da teoria, incorporando aspecto da física quântica, que descreve átomos e partículas subatômicas. Mas ainda não sabemos como fazer isso, apesar de décadas de tentativas.

As ondas gravitacionais foram previstas pela primeira vez na teoria da relatividade geral. Por que ainda não conseguimos detectá-las e qual seria a importância de estudá-las em detalhes?

Ainda não detectamos as ondas gravitacionais porque são extremamente fracas. Elas são uma previsão direta da teoria e deverão ser detectadas nas próximas décadas. Essencialmente, como na teoria o espaço é deformável, se as massas que causam sua curvatura estão em movimento, por exemplo, duas estrelas em órbita, o espaço à sua volta irá ter sua deformação variando no tempo, causando ondas gravitacionais. Estudar ondas gravitacionais é abrir um novo capítulo na história da astronomia; com elas, seremos capazes de estudar fenômenos extremamente violentos no universo, como a colisão de buracos negros, ou quando uma estrela de neutrons “engole” outra estrela normal. Possivelmente, até mesmo o Big Bang deixou um registro nas ondas gravitacionais que existem no espaço. Seria a observação mais dramática que podemos imaginar, ondas criadas na própria origem do universo!

Qual é a importância de passar a ciência como uma forma acessível de conhecimento? O que isso pode significar para a nossa sociedade?

A ciência é não só uma forma de conhecimento que transforma profundamente como vivemos e como entendemos a natureza, mas algo que nos transforma também. Veja que há apenas 200 anos, as pessoas viviam em média a metade do tempo que vivemos hoje. Não existiam aparelhos elétricos, muito menos digitais. Viagens apenas a cavalo ou barco. A transformação é profunda e irreversível. Uma sociedade que quer avançar precisa ter cidadãos que saibam como o mundo está mudando, e como podem afetar essa mudança através da sua criatividade. A ciência precisa ser vista como parte integral da nossa cultura e como força transformadora, que determina, em grande parte, o nosso futuro. Uma sociedade que não tem seus cidadãos informados sobre a ciência está se condenando a viver no passado.

Você considera Albert Einstein o maior cientista do século XX? Existe, hoje, alguém comparável a ele?

Sem dúvida, Einstein é o maior cientista do século XX, e um dos maiores de todos os tempos. Falamos muito da relatividade, mas essa é apenas uma de suas incríveis teorias. Ele foi, também, um dos arquitetos da teoria quântica, criando o conceito de fóton, a partícula de luz, essencial na física dos lasers, por exemplo. De quebra, mostrou que os átomos e moléculas existem (e não são apenas ideias) e avançou profundamente nossa compreensão da física quântica, sendo um dos maiores críticos de sua interpretação. Não existe alguém comparável a ele. Talvez um dos que chegou perto foi Richard Feynman, mas mesmo assim a comparação é um pouco inútil. A física mudou muito, e hoje é bem mais difícil um único indivíduo se sobressair tanto; trabalhamos em grupos, e a diversificação das linhas de pesquisa torna difícil a imagem do “fisico completo” que sabe um pouco de tudo. Einstein é um ícone do conhecimento humano, sem par na história.

Fonte: http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2015/11/marcelo-gleiser-einstein-e-um-icone-do-conhecimento-humano.html

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